A pastoral do terror
O historiador Jean Delumeau desenrola o fio que nos une a um passado de medo e pecado
Mary Del Priore
Historiadora e autora de O mal sobre a terra: uma história do terremoto de Lisboa de 1755
É possível fazer a história das inquietações humanas? A resposta, quando se trata de Jean Delumeau é: sim. Para o leitor interessado não apenas em história, mas em teologia, em literatura, em arte, este historiador que ocupou durante 20 anos a cadeira de História das Mentalidades Religiosas do Ocidente Moderno, no Collège de France, é um prato cheio. Brilhante, é o mínimo que se pode dizer de um pesquisador que se tornou conhecido do grande público por suas excepcionais sínteses sobre os sentimentos de medo e culpabilidade - caso deste clássico que é o Pecado e o medo - mas, também, sobre a necessidade de proteção, esperança e felicidade, da Idade Média aos nossos dias. Sua peculiaridade? É que para além de um escritor fenomenal, um pesquisador rigoroso e historiador de apetite infinito, Delumeau é, também, um militante. Militante engajado de um cristianismo ecumênico e tolerante, em terras onde a razão e a laicidade fizeram sua morada.
Esta viagem intelectual pela história do medo começa com seu primeiro livro, História do medo no Ocidente. Onipresente, o sentimento se materializou, graças, sobretudo, a satã, cujo retrato a Igreja cuidadosamente consolidou até chegar aos minuciosos tratados de demonologia publicados entre os séculos 16 e 17. Neles, o demônio e seus acólitos - a mulher, o judeu, o muçulmano e a bruxa - são pintados com todos os detalhes. Neste belo O pecado e o medo, baseado no método da história regressiva, o historiador desenrola um fio que tem na culpa e no pecado sua trama. Segundo o autor, uma verdadeira ''pastoral do medo'' - como a intitula Delumeau - colocou em ação a máquina de conversão que adestrou as populações no Ocidente cristão, entre os séculos 13 e 18. Nesta pastoral, o sermão - que se ouvia chocalhando os dentes - fustigava os pecados capitais e veniais, acordando um lugar privilegiado ao inferno. A finalidade era a de aterrorizar os fiéis para o ''seu bem'', encaminhando-os às vias da salvação, sob a ameaça de castigos ao mesmo tempo terríveis e eternos.
Inspirados em sua maior parte no Apocalipse de São Paulo, que esmiúça os suplícios do Além com riqueza de pormenores, tais idéias irão reverberar na iconografia infernal, iconografia florescente na pintura, na escultura e na recém-inventada imprensa. Tão ou mais cruéis do que as realidades penais da época, os suplícios eram cantados em prosa e verso: os do fogo, que seguiam raros na prática jurídica, e os do frio, que não existiam na realidade. Assistiu-se, então, ensina Delumeau, à eclosão de um trabalho de imaginação sem precedentes, em que todas as metáforas, imagens e associações serviam para dizer a dor de morrer em pecado. As punições infernais, por exemplo, tinham que atingir os cinco sentidos, ferir a pessoa inteira e corresponder à natureza dos pecados cometidos. A partir daí, artistas e pregadores criaram uma gama infinita de castigos corporais, na maior parte inspirados em suplícios públicos. Vejamos o exemplo extraído de uma gazeta de 1603: um criminoso é esfolado vivo com alicates em brasa, tem um mamilo arrancado e é, depois, decapitado e queimado. Em outra execução, enterram uma estaca pontuda no ânus do condenado, enquanto suas partes pudendas se carbonizam com fogos de artifício.
A pregação sobre o fim último, o julgamento final e a passagem pelo fogo do inferno revirava de tal forma as tripas dos fiéis que, tão logo terminava a missa, eles corriam ao confessionário para pedir perdão pelas faltas cometidas. Nestas representações, o inferno estava povoado por demônios. A idéia corrente entre teólogos era a de que existiam tantos anjos da guarda quanto diabos tentadores. Conseqüentemente, os infernos descritos entre os séculos 16 e 17, além de comandados pelo grande satã, regurgitavam de criaturas demoníacas a revirar com tenazes pecadores em caldeirões de excremento e fogo. Tal idéia, por sua vez, era também onipresente na iconografia, nas concepções populares e no discurso religioso. Ouçamos, para ficar num outro exemplo, parte do sermão do célebre jesuíta Paolo Segneri:
''O fogo fará sozinho o serviço de todos os carrascos e ocupará o lugar de todos os suplícios que se poderia acrescentar. Ele fará sentir ao mesmo tempo o ardor dos braseiros, o frio dos gelos, a picada das serpentes, o fel dos dragões, os dentes dos leões, a violência das torturas, o desencaixe dos ossos, as chuvas de pedras, os dilúvios de chibatadas, os garrotes, as algemas, os pentes de ferro, as forcas, as rodas, ele reunirá, ele juntará tudo isso.''
Perguntado, certa vez, se haveria relação entre o medo do pecado e a história de nossas inquietudes, Delumeau respondeu que a humanidade tem um sentimento de justiça que só se compreende por meio da idéia de inferno. E que a necessidade de explicar o inexplicável e de encontrar compensações para as injustiças sociais é característica dos momentos de crise e desestabilização. A proliferação de discursos sobre o pecado e suas penas é, portanto, marca dos séculos 14 a 16, correspondendo justamente ao nascimento da modernidade. Tal parto se insere num clima difícil, feito de numerosas pestes, guerras civis, guerras de religião e invasões turcas que agudizavam a sensação de injustiça e instabilidade. Ao contrário do que muitos especialistas pensaram, a modernidade e mesmo o Renascimento não teriam se produzido num clima de euforia, mas de crise, lágrimas e terror.
Na obra extraordinária que é O pecado e o medo, Delumeau conduz, com paixão e competência, o leitor por quase cinco séculos de história por temas como o desprezo do mundo e as danças macabras, o exame de consciência e a confissão obrigatória, os tipos de pecado, o deus com ''olhos de lince'', a predestinação. Os cuidados da editora com a apresentação em dois volumes e a ótima tradução de Álvaro Lorencini, além do prefácio especial do autor para os leitores brasileiros, valorizam a obra. Senhor de uma narrativa objetiva, apoiada em notas de rodapé que só confirmam sua imensa erudição, Jean Delumeau nos oferece um livro admiravelmente bem construído, que explora, como nenhum outro, as inquietações de nossos antepassados frente à culpa, o medo, o pecado e o inferno. Correntes de informações, dados e documentos históricos aí se cruzam, se entrelaçam, se imbricam, mas, contrariamente às almas pecadoras, neles o leitor jamais se perde.
JB On line - São Paulo, 27 de dezembro de 2003
segunda-feira
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