domingo

Medo Urbano


Medo urbano se destaca na incerteza, insegurança, sofrendo variações. O medo está tão fundido em nosso cotidiano que não mais o identificamos como tal. O receio do amanhã, da falta de proteção, capacidade, adequação. Um medo alimenta o outro, e sua difusão acontecem por todos os meios. O medo na atualidade é manipulado, e quem sofre se deixa manipular, acreditando em quem lhes promete extrair o pavor que engloba suas vidas.


Um diário

Ela não tinha medo de viver. Não que sua vida fosse um mar de rosas, não. Mas ela sempre tentava ver o lado bom das coisas. Usando o humor conseguia transformar a carranca de qualquer um num belo par para acompanhar seu sorriso.

Ninguém mais usa preto no velório, só nos filmes. O dia estava nublado, mas todos usavam óculos escuros. Em todo lugar em que olhava via alguém, seja sozinha ou em grupo, encolhido, como se o peso da perda fosse demais.

Ela não era a melhor ou a mais dedicada, simplesmente era. Adorava dançar, sair com os amigos, namorar. Ela tinha um namorado, mas não me lembro dele antes, só depois.

Ela morreu. Morreu, morreu. Ninguém parecia entender isso, ou quem sabe entendiam demais.

A maioria era jovem, ela tinha bastantes amigos. Todos choravam. Choveu lágrimas em seu caixão.

Tropeçou, simples assim. Ela tropeçou na calçada e o carro bateu, na cabeça. Foi para o hospital, e morreu.

Pai, mãe, irmão, toda uma família com medo, de viver sem ela. Não sei o que aconteceu com eles depois , tive medo de perguntar, da resposta.

Eu não tenho medo de morrer. Tenho medo de tropeçar e morrer, assim como ela.


Maria Clara

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