domingo

Uma leitura de Whisky, por Giana Andonini

O filme conta a história de três pessoas, que apesar de próximas, são desconhecidas. A história passa em Montevidéu onde Jacobo, um homem solitário de meia idade (estrelado por Andres Pazos) possui uma pequena e em más condições fábrica de meias. Marta (estrelada por Mirella Pascual) é uma mulher também solitária que trabalha na fábrica de meias de Jacobo como sua supervisora. A relação dos dois é silenciosa, como muitos momentos do filme, e também pode ser descrita pela palavra inércia. Inércia porque ela é repetitiva e rotineira, e os diretores Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll conseguem muito bem traduzir este sentimento de dia após dia igual ao anterior com os enquadramentos e movimentos utilizados.
A relação entre Jacobo e Marta é abalada* quando o irmão de Jacobo, Herman que vive no Brasil viaja a Montevidéu para participar da matzeiva de sua falecida mãe, uma celebração judaica para a colocação da pedra do túmulo em até um ano após a morte de uma pessoa. Herman, que também possui uma fábrica de meias, mas mais bem sucedida que a de Jacobo, não retornava a terra natal há 20 anos. Ele também não havia ido ao enterro de sua mãe no ano anterior, a qual Jacobo havia cuidado todo este tempo que estava doente. O filme dá a entender que a relação entre Herman e Jacobo é fria e desconhecida.
A visita de Herman desperta em Jacobo a velha competição existente entre os irmãos, que faz com que ele faça a Marta uma proposta inusitada, mas que no filme é realizada de uma forma bem discreta: que ela seja sua esposa durante a visita de Herman. Marta aceita a proposta, também de forma discreta. Ela passa então a morar alguns dias no apartamento de Jacobo.
Durante a estadia de Herman, Marta vai se mostrando um pouco mais aberta e deixa claro que fora daquele ambiente inerte em solidão que a fábrica de Jacobo representa, ela não é tão solitária, mas sim apenas sozinha e reservada, e a partir disto mostra que está gostando daquela encenação. Já Jacobo deixa claro a distância existente entre ele e o irmão, e também mostra como a solidão o tornara uma pessoa constantemente cíclica, imerso na repetição da sua rotina, assim como as roldanas do maquinário dos fios de sua fábrica.
Já Herman se mostra mais falador e age como se não houvesse esta tamanha distância entre o irmão e a “cunhada”, que na verdade são três pessoas muito desconhecidas e distantes representando três pessoas também distantes, mas conhecidas.
O ápice da revitalização demonstrada por Marta acontece quando o fictício casal é convidado por Herman para uma viagem a uma cidade litorânea na qual ele e o irmão costumavam passar as férias quando criança, a cidade de Piriapolis. Piriapolis, assim como todo o clima do filme, também é mostrada como vazia, como o vazio das cidades que já foram badaladas anteriormente e hoje estão decaídas. É uma mistura de clima da ostentação antiga com o vazio atual. Na viagem, Marta acaba se identificando bastante com Herman, que é animado e comunicativo, exatamente o oposto de seu irmão Jacobo.
O título do filme – Whisky – “representa uma fina ironia da necessidade que os personagens, especialmente Jacobo, têm de fingir uma felicidade inexistente” (retirado da sinopse – www.adorocinema.com.br). A palavra Whisky (pronunciada como Uíque) é como a expressão “xis” que aqui no Brasil falamos para sairmos sorrindo nas fotos. No filme, a expressão, que carrega todo o significado e sentido da história, é apresentada em dois momentos que merecem ser destacados. O primeiro é a foto em que Jacobo e Marta tiram para colocar em um porta-retrato, para que quando Herman chegasse a foto no balcão da sala servisse como “prova” do “casamento”. O segundo momento é quando os três estão em Piriapolis e tiram uma foto “em família”. O sorriso (ou whisky) dessa foto em família concentra todo o sentido de filme: três pessoas totalmente desconhecidas, mas que ao fim são uma família, tentando fingir uma felicidade que não existe.
Ao final do filme, Herman e Jacobo retornam a suas rotinas, Herman volta ao Brasil e Jacobo à solitária rotina de sua fábrica de brindes. A surpresa no final está no dia seguinte ao término da “farça”, em que Marta, que sempre já estava em pé esperando Jacobo chegar, não vai para o trabalho. É a mudança de alguém que experimentou algo melhor e aceita a mudança.
A temática medo é apresentada no filme de uma forma bem sutil, relacionada a vivência da solidão. O medo em si não é representado no filme, mas aparece sim como uma espécie de provocação ao espectador, provocando o medo da solidão, da rotina constante e do medo de mudança.

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